A Dor de Não Amamentar

Acho que o post de hoje vai ser o mais dolorido de escrever, até porque o assunto ainda me machuca, hoje não sofro mais, mas com certeza ainda me dói, essa é uma ferida que sempre vai ter casca.

Desde a gravidez eu me preocupei muito com a amamentação, até tem um post no meu Instagram (@meuladomae_) de quando eu estava grávida, onde falo que eu iria me frustrar muito se não conseguisse amamentar.

Esse meu medo era porque em 2010 eu coloquei prótese de silicone e por estética optei por colocar pelos mamilos, na época minha cirurgiã me alertou que nesse procedimento eu poderia vir a ter problemas para amamentar e que por isso eu devia pensar bem. Como na época eu não sonhava em ser mãe, não me preocupei muito e coloquei a estética em primeiro lugar. 😦

No último trimestre da gravidez eu vi colostro no meu seio e fiquei tão, tão feliz porque era um indicio de que sim, eu teria leite, depois disso li muito à respeito, assisti vídeos, conversei com consultora de amamentação e comprei todos os apetrechos necessários (conchas, gel pads, bomba, sacos para armazenamento, roupas de amamentação e etc). Me sentia teoricamente preparada, sabia que podia ter os mamilos feridos e muita dor, mas isso não seria empecilho, a única coisa que poderia boicotar a amamentação seria eu não ter leite e isso me assombrava.

Bom, a Luanna nasceu e logo veio pro meu peito, é muito lindo ver o instinto deles ao nascer, já procurando pelo seio da mãe. Quando vi ela mamando, chorei, mais um sonho estava se realizando! Nessa primeira pega ela já feriu meu seio esquerdo, mas como eu disse, isso não seria empecilho.

No hospital ela parecia um relógio, a cada 3 horas chorava pra mamar e eu tive muita dificuldade com a pega, isso porque meu peito ficou assustadoramente grande e meus mamilos são praticamente planos, as enfermeiras do hospital me auxiliaram muito e graças a Deus ela só perdeu 5% do peso de nascimento no hospital (o normal é até 10%).

As enfermeiras me disseram que o leite descia entre o 3° e o 5° dia e que na apojedura (momento em que o leite desce) meu peito iria ficar quente, dolorido e maior ainda do que estava, e eu fiquei esperando esses sintomas e nada.

Na primeira noite me casa, ela feriu o meu peito direito, mas feriu mesmo, parecia que tinha arrancado um pedaço, isso foi na noite de sexta pra sábado e na segunda-feira eu já tinha agendado uma consultora de amamentação, uma dessas famosinhas do IG, que faz consultoria pras famosas, como ela parecia ser TOP não pensei duas vezes em chamá-la.

A primeira noite em casa foi muito desgastante, a privação do sono é terrível, fora a insegurança que a gente sente, não sabemos se o bebê está mamando o suficiente, se estamos fazendo tudo certo, sério é bem difícil, eu não tinha noção que ia ser tão difícil.

Eu e o marido tínhamos combinado de não receber visitas nos primeiros 15 dias, porque eu tinha lido bastante sobre o puepério, que era um momento difícil e que a mãe e o bebê precisavam entrar num ritmo. Mas uma parte da família do marido é de fora e veio pra São Paulo pra conhecer a Luanna, no sábado de manhã eu tava esgotada, meu peito estava em carne viva, o que não me permitia sequer fechar o sutiã, lembro que tomei banho e coloquei o pijama novamente, estava tão cansada que não tive coragem de secar o cabelo, mas apesar do cansaço eu não queria que ninguém cuidasse dela pra mim.

As visitas chegaram e a Luanna quis mamar, eu ainda não tinha sentido o leite descer efetivamente, mas tinha bastante colostro, meu peito tava grande e duro e a Luanna teve muita dificuldade pra pegar, tentava pegar e chorava, berrava muito.

Eu e o marido estávamos super cansados porque a noite tinha sido muito intensa, praticamente não tínhamos dormido, ai parecia filme de terror, a Luanna berrando, a gente super estressado, as visitas em casa e a gente tentando acalmar a neném, nessa hora meu marido disse, ela tá berrando de fome, você não tem leite suficiente, e eu tava tão insegura que concordei com ele, tava exausta, o peito ferido, a criança não conseguia abocanhar meu peito, e as visitas assistindo aquele show de horror!

Meu marido decidiu ligar pra pediatra e perguntar qual fórmula podíamos dar, na hora a pediatra disse que não precisava, que nesse começo era assim mesmo, que ela tinha perdido pouco peso na maternidade, que isso era um bom sinal, que ela tinha reserva suficiente e que provavelmente meu leite ainda não tinha descido, mas estávamos tão estressados e a Luanna não parava de chorar, que não nos convencemos, o marido insistiu que queria tentar a fórmula e a pediatra mesmo sem concordar indicou qual seria a melhor para aquele momento, meu marido saiu pra comprar e eu fiquei remoendo, sofrendo.

Perguntei pra minha cunhada o que ela achava, se ela achava que ela ia largar o peito se eu desse a mamadeira, ela sem nenhum julgamento disse que era relativo, que ela teve que complementar com as duas filhas, uma largou o peito e a outra não. Parecia que eu tava sentindo, que meu sexto sentido tava me dizendo pra não dar a mamadeira, mas eu estava tão insegura que tentei acreditar que daria tudo certo, mesmo o meu subconsciente dizendo que não, no fundo eu sabia que não ia dar certo… 😦

Meu marido chegou e demos a mamadeira, ela mamou numa voracidade que tivemos certeza que era fome, mamou, se acalmou e dormiu. Eu fiquei arrasada…

Meu marido tentava me acalmar dizendo que a mamadeira ia ajudar, porque ela mamando um pouco menos no peito ia fazer o mamilo sarar mais rápido, fora que eu podia dormir mais pra ajudar na descida de leite, já que estava sem dormir a praticamente 3 dias.

Fui dormir e chorei muito, chorei escondido, acho que nem meu marido sabe disso, chorei porque dentro de mim eu sabia que eu estava cometendo um erro, eu tinha lido tanto e sabia que a mamadeira era inimiga, principalmente quando o bebê ainda está aprendendo a mamar no peito, mas também estava exausta e não conseguia ver minha bebê chorando de fome (a gente sempre acha que é fome, e não necessariamente é).

No domingo seguimos eu dando um peito (o menos ferido) e a mamadeira, sempre começava pelo peito, óbvio que fazendo isso o peito que estava amamentando ficou muuuuito maior que o outro (o mais machucado), eu tentava dar a mamadeira só de madrugada.

Na segunda-feira de manhã chegou a consultora de amamentação, eu tava tanto precisando de um conforto, uma mão amiga e achei que fosse encontrar isso nela, mas não, ela foi muito seca, fria mesmo! Ela me ensinou a técnica da sondinha, pra estimular o peito a produzir mais, também me mostrou como dar no conta-gotas e na seringa. Honestamente, isso tudo é muito difícil pra uma mãe de primeira viagem, que mal consegue descansar ou comer, a gente mal sabe colocar a auréola do peito na boca do bebê e ajustar a pega, imagina ter que colocar com uma sonda colada, eu de verdade tentei todos os dias, vazava leite pra tudo quanto é lado, a bebê chorava, me molhava inteira e eu cedia pra mamadeira.

Na terça-feira tivémos a primeira consulta com a pediatra, a Luanna estava ótima, já tinha recuperado o peso do nascimento e a pediatra insistia que eu tinha leite (na madrugada de domingo pra segunda meu peito vazou na cama durante a noite, acho que foi nesse dia que o leite desceu, no quinto dia). Ela fez um teste, pesou a Luanna, ai eu dei o peito por uns 15 minutos e pesamos de novo, lembro até hoje, ela aumentou 80 gramas no peso e a pediatra disse que nesses 15 minutos ela tinha mamado 80ml e que era sim o suficiente pra ela, que eu não precisava complementar.

Meu peito continuava muito ferido e a Luanna SEMPRE dormiu mamando, o que fazia as mamadas durarem 1 hora ou mais, o que machucava mais ainda o mamilo,  então decidimos dar a mamadeira na madrugada pra dar um respiro pro peito. Ai resolvi comprar o bico de silicone pra fazer ela ficar só no peito e assim fiz, ela continuava demorando muito pra mamar, dormia no peito e chorava quando eu tirava. Também estava estimulando com a bomba e saia muito pouco leite, comecei a realmente achar que de fato não tinha leite suficiente e voltei a dar a mamadeira depois do peito. Também pedi pra pediatra me receitar um remédio pra estimular a produção de leite.

Como contei no post anterior, com 9 dias de vida ela foi internada, no hospital eu também dava o peito e complementava com a mamadeira, mas eu tinha que usar a mamadeira do hospital que era diferente da de casa e pior, tinha o fluxo mais rápido, como consequência, no 3° dia de internação (ela tinha apenas 12 dias) ela passou a recusar o seio, mesmo com o bico de silicone ela recusava, chorava muito e empurrava a cabeça pra trás, eu fiquei DESESPERADA, eu já estava vivendo o pesadelo da internação e agora ela não queria mais o peito, insisti TODOS OS DIAS e ela recusava, pegava, mamava 30 segundos e chorava muito, nitidamente tinha feito confusão de fluxo, tinha se acostumado com o fluxo contínuo da mamadeira do hospital que não exigia esforço pra mamar. Chorei, chorei e chorei!

Desabafei com uma amiga que estava grávida e ela me mandou o link de um vídeo do mini curso de amamentação da Isa Crivelaro, na hora já entrei em contato com ela e agendei um atendimento pra próxima semana.

A Isa além de consultora de amamentação é fonoaudióloga, foi uma fofa, examinou a Luanna e viu que ela ainda sabia sugar a mama, mas estava fazendo confusão de fluxo e como ela estava mamando pouco no peito a minha produção realmente tinha diminuído, a solução seria parar 100% com a mamadeira e complementar na sonda pra estimular a minha produção, mas era justamente aí que estava o desafio, ela já estava recusando o peito, não queria mais pegar e era muito difícil fazer ela pegar o peito com a sonda, quando ela pegava e mamava eu chorava de emoção, e quando ela recusava eu dava o complemento na colher, mas ela começou a se irritar com a colher, queria sugar alguma coisa e como já tava irritada era praticamente impossível fazer ela pegar o peito com a sonda, eu tentava, tentava, tentava e me rendia pra mamadeira, foi assim por vários dias. A Isa estava sempre em contato comigo, tentei usar concha pra deixar o bico mais profuso, tentei usar um equipamento da Lansinoh pra fazer bico e a Luanna pegava 1 em 20 vezes. Eu seguia tirando leite com a bomba de 3 em 3 horas e tomava Equilid pra estimular a produção, mas usando a mamadeira era cada vez mais difícil fazer ela aceitar o seio.

Eu procurei todo tipo de ajuda que estava ao meu alcance, mas parecia impossível fazer ela voltar pro peito, tentei ajuda no GVA (Grupo Virtual de Amamentação), mas a indicação era sempre a de jogar a mamadeira fora pra não cair em tentação e eu não conseguia, não por ser mais fácil pra mim, mas por não conseguir ver minha bebê chorar desesperadamente, isso me mutilava, eu sentia como se fosse uma violência com ela, tentar forçar ela pegar o peito, e na verdade era. Num nos meu desabafos no GVA, uma amiga que trabalhou comigo há muitos anos atrás leu e me mandou uma mensagem, disse que tinha uma consultora de amamentação da Casa Curumim que era excelente, que tinha 30 anos de experiência e que só ela conseguiu identificar o problema que a bebê dela tinha pra mamar. Eu não pensei duas vezes, liguei pra consultora (que também era fono) e marquei.

A Luanna já tinha 2 meses e tava a praticamente 1 mês sem mamar no peito, vez ou outra ela pegava com a sonda, mas não ficava nem 5 minutos no peito. Quando contei isso pra consultora da Casa Curumim ela me avisou que estávamos no limite do tempo, que era difícil fazer um bebê dessa idade a voltar pro peito, mas eu confiei, fiz até promessa! Mas também jurei pra mim mesmo que seria minha última tentativa, que se não desse certo eu ia para de insistir e sofrer, mas de verdade eu acreditei que ia dar certo.

No dia da consultoria ela disse que eu iria precisar de alguém pra me ajudar, que era muito difícil amamentar com a sonda sem ajuda de alguém no começo, eu gostei da sinceridade dela e pedi ajuda pra minha madrasta. Assim que ela chegou, anotou tudo o que tinha acontecido e pediu pra ver como a Luanna reagia ao peito, assim que tirei o seio pra fora do sutiã a Luanna começou o escândalo, ai tentamos colocar a sonda pra ver se ela ia se acalmar, não adiantou nada, foi leite pra tudo quanto é lado, ela empurrava o seio e gritava, ai a consultora pediu pra avaliar a Luanna, viu que ela não tinha problemas no freio da boca, mas que simplesmente ela não sabia mais sugar o peito, que a sucção dela já tinha mudado, era fraca e com o movimento próprio de mamadeira, ela fez esse teste fazendo a Luanna sugar o dedo dela.

Ela pediu pra minha madrasta pegar a Luanna no colo e foi muito sincera comigo, disse que a probabilidade da Luanna voltar pro peito era muito remota, mas muito mesmo. Disse que em 30 anos de experiência não tinha visto nenhum bebê com a idade e a sucção dela, voltar pro peito, que se eu continuasse a insistir a Luanna poderia começar a recusar o meu colo, pois só de ver o peito ela chorava, disse que com as tentativas que eu tinha feito, ela já tinha gerado um trauma e quanto mais eu forçasse, pior seria. Eu chorei muito, igual a criança e ela me aconselhou de ao invés de gastar dinheiro com consultoria de amamentação eu deveria procurar ajuda psicológica pra aceitar a situação e para de me culpar.

Nesse dia eu chorei tudo o que podia e jurei pra mim mesma que não ia mais sofrer, que ia enterrar o assunto e seguir a vida e assim fiz, óbvio que dói e sempre vai doer, mas parei de sofrer.

Eu sinto muita culpa, porque de verdade eu sei que cometi erros, acho que eu tinha que ter esperado a pediatra recomendar o complemento, porque até hoje eu não sei se eu tinha leite o suficiente, o complemento foi inserido antes do meu leite descer, pode ser que de fato eu precisasse complementar, mas eu não esperei, fora que eu devia ter dado o complemento no copinho e não de cara na mamadeira.

Mas apesar disso tudo eu nunca me senti julgada por dar mamadeira, muito pelo contrário, as pessoas apoiavam, todo mundo dizia que não tinha sido amamentado e nunca tinha ficado doente, ou que também não tinha amamentado o filho e etc, o que eu sinto que me faltou foi apoio pra amamentar, eu queria que alguém chegasse até a mim e dissesse, vem cá, faz assim assado, comigo foi assim, você vai conseguir e tals. Eu até tive esse apoio nas redes sociais, quando eu desabafava, alguma mãe me dizia pra continuar insistindo que eu ia conseguir, mas as pessoas a minha volta eram favoráveis à mamadeira. Eu sei que as pessoas só querem ajudar, querem que eu me sinta melhor, mas as vezes a gente precisa de uma injeção de ânimo, de coragem, de confiança e isso de verdade me faltou. Sei que algumas pessoas ao lerem esse post, vão se chatear comigo, mas é o que eu sinto.

Por isso sempre que vejo uma grávida ou uma mãe com dificuldade de amamentar, eu falo que se ela tiver o sonho de amamentar, pra ela insistir e evitar ao máximo a mamadeira, porque a dor de não amamentar é mais dolorosa.

Tentem, insistam e resistam! Com certeza vai valer a pena!

Uma pena eu não ter conseguido…

Beijos

7 comentários em “A Dor de Não Amamentar

  1. Senti tudo o que vc sentiu.. meu filho hoje está com 2 meses e meio e desde que ele completou 1 mês recusou meu peito. É uma dor muito grande vc oferecer o seu seio a seu filho e ele berrar, como se aquilo machucasse ele! Chorei, chorei e chorei.. ainda hoje este assunto me abala. Mas o que importa é que ele está super forte e crescendo super bem. Isso me conforta

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  2. Como pode? Me vi nesse texto. Minha bebê mamou 11 dias, foram 11 dias dolorosos. Perdi parte do mamilo e me deixei levar pelas conversas de mamadeira. Quanto arrependimento! Aos 2 meses minha bebê voltou para o peito, agora sem dor. Só que era tarde, a produçao havia diminuido. Ela preferia a mamadeira e eu tive que aceitar. Mas não foi fácil. Insisti, insisti muuuuito até os 4 meses tentava. Mas ela não queria saber mais do peito. O sentimebto de culpa é o pior, e a falta de apoio no inicio foi o pico para essa situação. Te entendo e vejo e sinto até hoje o quanto é doloroso não amamentar.

    Curtido por 1 pessoa

    1. É muito dolorido né? Principalmente quando a gente sabe que dava pra amamentar. Mas ficamos muito frágil no puerpério e qualquer coisa nos afeta!
      Mas aprendemos a lição! Nos resta agora lidar com essa ferida que teima em doer quando cutucada!
      Beijão

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